História da Microbiologia

 

Antecedentes teóricos e concepções antigas sobre a vida invisível


A compreensão da existência de formas de vida microscópicas não surgiu de maneira repentina no século XVII. Na Antiguidade, filósofos gregos como Demócrito (século V a.C.) formularam hipóteses atomistas segundo as quais partículas invisíveis poderiam estar associadas à origem das doenças. Hipócrates (c. 460 a.C.–c. 370 a.C.) também buscou explicações naturais para enfermidades, afastando interpretações exclusivamente sobrenaturais.

Durante a Idade Média (séculos V–XV), predominou na Europa a explicação baseada em miasmas, isto é, vapores nocivos provenientes da decomposição orgânica. Embora houvesse observação empírica de processos como fermentação e deterioração de alimentos, inexistiam instrumentos capazes de revelar a presença de organismos microscópicos. Nesse contexto, consolidou-se a teoria da geração espontânea, segundo a qual seres vivos poderiam surgir da matéria inanimada.



O surgimento da microscopia e a descoberta do mundo microbiano no século XVII


A consolidação da Microbiologia como campo científico teve início com o desenvolvimento de instrumentos ópticos mais sofisticados no século XVII. Em 1665, Robert Hooke publicou a obra “Micrographia”, na qual descreveu estruturas microscópicas observadas em cortiça, introduzindo o termo “célula”.

O marco decisivo ocorreu em 1674, quando Antonie van Leeuwenhoek observou protozoários em amostras de água, e em 1676 descreveu bactérias, que chamou de “animálculos”. Seus microscópios, construídos artesanalmente, atingiam ampliações superiores às de outros instrumentos da época. Pela primeira vez, a existência de seres invisíveis ao olho humano foi demonstrada empiricamente.

Esse período representou uma ruptura epistemológica, pois permitiu relacionar fenômenos antes interpretados como espontâneos à presença de organismos microscópicos reais.



O debate sobre a geração espontânea nos séculos XVII e XVIII


Apesar das descobertas microscópicas, a teoria da geração espontânea manteve-se influente até o século XIX. Em 1668, Francesco Redi demonstrou que larvas em carne em decomposição provinham de ovos depositados por moscas, não surgindo espontaneamente.

No século XVIII, Lazzaro Spallanzani realizou experimentos com caldos nutritivos fervidos e mantidos em frascos selados, mostrando que não ocorria crescimento microbiano quando o contato com o ar era impedido. Contudo, defensores da geração espontânea alegaram que o aquecimento eliminaria uma suposta força vital necessária à vida.

A controvérsia evidenciou a importância do método experimental rigoroso, elemento central na consolidação da ciência moderna.



A consolidação da teoria microbiana no século XIX


A resolução definitiva do debate ocorreu com os experimentos de Louis Pasteur em 1859. Utilizando frascos de pescoço de cisne, Pasteur demonstrou que microrganismos presentes no ar eram responsáveis pela contaminação dos meios de cultura. O caldo esterilizado permanecia estéril enquanto partículas do ambiente não atingissem o interior do frasco.

Essas experiências refutaram a geração espontânea e estabeleceram o princípio da biogênese. Ademais, Pasteur demonstrou que fermentações específicas eram causadas por microrganismos específicos, estabelecendo a base para a microbiologia industrial. Em 1864, desenvolveu o processo de pasteurização, método de aquecimento controlado para eliminar microrganismos patogênicos em líquidos.



O nascimento da bacteriologia e os postulados de Koch


Entre 1876 e 1884, Robert Koch sistematizou a relação entre microrganismos e doenças infecciosas. Em 1876, demonstrou que o Bacillus anthracis era o agente causador do antraz. Em 1882, identificou o Mycobacterium tuberculosis como responsável pela tuberculose, e em 1883 descreveu o Vibrio cholerae.

Em 1884, Koch formulou seus postulados, critérios experimentais para estabelecer a relação causal entre um microrganismo e uma doença. Esses princípios estruturaram a bacteriologia como disciplina científica autônoma.

Nesse mesmo período, Ferdinand Cohn propôs classificações bacterianas baseadas em morfologia, contribuindo para a organização sistemática do conhecimento microbiológico.



Desenvolvimento das técnicas laboratoriais e expansão da microbiologia


O avanço da microbiologia no final do século XIX esteve intimamente ligado ao aperfeiçoamento técnico. Em 1882, Fanny Hesse introduziu o uso do ágar como agente solidificante para meios de cultura, substituindo a gelatina. Em 1887, Julius Richard Petri desenvolveu as placas de Petri, que permitiram o isolamento de colônias puras.

Martinus Beijerinck, em 1887, aperfeiçoou técnicas de cultivo seletivo, possibilitando o estudo de microrganismos ambientais. Seus trabalhos sobre bactérias fixadoras de nitrogênio demonstraram a relevância da microbiologia para a agricultura e para os ciclos biogeoquímicos.



O surgimento da virologia no final do século XIX


A descoberta dos vírus ampliou a compreensão sobre agentes infecciosos. Em 1892, Dmitri Ivanovsky observou que o agente do mosaico do tabaco atravessava filtros que retinham bactérias. Em 1898, Beijerinck concluiu tratar-se de um “vírus filtrável”, inaugurando a virologia.

Em 1935, Wendell Stanley cristalizou o vírus do mosaico do tabaco, demonstrando sua natureza molecular. O desenvolvimento da microscopia eletrônica, a partir de 1931 com Ernst Ruska, permitiu visualizar vírus e estruturas subcelulares, consolidando essa nova área.



A era dos antibióticos e a revolução terapêutica


Em 1928, Alexander Fleming descobriu a penicilina ao observar a inibição do crescimento bacteriano por fungos do gênero Penicillium. A produção em larga escala, iniciada em 1941 por Howard Florey e Ernst Chain, inaugurou a era dos antibióticos.

Essa descoberta reduziu drasticamente a mortalidade por infecções bacterianas e transformou a prática médica no século XX. Contudo, o uso disseminado desses fármacos levou ao surgimento de bactérias resistentes, problema que se tornou um dos maiores desafios contemporâneos da microbiologia médica.



A integração com a genética e a biologia molecular


A partir da década de 1940, microrganismos tornaram-se modelos centrais para estudos genéticos. Em 1944, Oswald Avery demonstrou que o DNA era o material hereditário. Em 1952, Alfred Hershey e Martha Chase confirmaram essa hipótese por meio de experimentos com bacteriófagos.

Em 1953, James Watson e Francis Crick publicaram o modelo da dupla hélice do DNA, com base em dados experimentais que incluíam as contribuições de Rosalind Franklin. A microbiologia passou a dialogar intensamente com a biologia molecular, estabelecendo fundamentos para a engenharia genética.



A revolução taxonômica e a genômica no século XX


Em 1977, Carl Woese propôs uma nova classificação baseada na análise de RNA ribossômico, dividindo os seres vivos em três domínios: Bacteria, Archaea e Eukarya. Essa proposta alterou profundamente a compreensão evolutiva da vida.

Em 1995, foi sequenciado o primeiro genoma bacteriano completo, o de Haemophilus influenzae. A genômica permitiu comparar microrganismos, estudar resistência antimicrobiana e desenvolver novas estratégias terapêuticas.

No início do século XXI, o sistema CRISPR-Cas9, derivado de mecanismos bacterianos de defesa, tornou-se ferramenta essencial para edição genética.

 

 

Infográfico sobre os principais momentos da história da Microbiologia
Infográfico com resumo sobre os principais momentos da história da Microbiologia

 

 

 


 

 

RESUMO

 

1. Antecedentes teóricos

- Explicações antigas sobre doenças.
- Predomínio da teoria dos miasmas.
- Difusão da ideia de geração espontânea.


2. Concepções na Antiguidade

- Hipóteses atomistas gregas.
- Busca por causas naturais para enfermidades.


3. Idade Média e permanência dos miasmas

- Interpretação das doenças como vapores nocivos.
- Ausência de instrumentos ópticos que permitissem observação microscópica.


4. Surgimento da microscopia no século XVII

- Avanços tecnológicos que permitiram ampliações significativas.
- Observações iniciais de estruturas microscópicas.


5. Descobertas de Leeuwenhoek

- Visualização de protozoários em 1674.
- Descrição de bactérias em 1676.
- Impacto na comprovação da vida microscópica.


6. Debate sobre geração espontânea

- Experimentos de Francesco Redi.
- Testes de Spallanzani com caldos nutritivos.
- Persistência da controvérsia científica.


7. Experimentos de Louis Pasteur

- Uso dos frascos de pescoço de cisne.
- Refutação definitiva da geração espontânea em 1859.
- Consolidação da biogênese e da fermentação microbiana.


8. Consolidação da teoria microbiana

- Estudo de doenças associadas a microrganismos específicos.
- Desenvolvimento da pasteurização em 1864.
- Criação de vacinas experimentais.


9. Avanços de Robert Koch

- Identificação de agentes etiológicos como o antraz e a tuberculose.
- Formulação dos postulados de 1884.
- Estruturação da bacteriologia como disciplina.


10. Desenvolvimento de técnicas laboratoriais

- Introdução do ágar por Fanny Hesse em 1882.
- Criação das placas de Petri em 1887.
- Expansão da microbiologia ambiental com estudos de Beijerinck.

 


 

Por Tânia Cabral - Professora de Biologia e Ciências do Ensino Fundamental e Médio - graduada na Unesp, 2001.

Publicado em 25/02/2026