Quelicerados
O que são quelicerados?
Os quelicerados constituem um subfilo do filo Arthropoda que reúne organismos invertebrados dotados de exoesqueleto quitinoso, apêndices articulados e corpo segmentado. Integram o subfilo Chelicerata, grupo que inclui aranhas, escorpiões, ácaros, carrapatos e os chamados caranguejos-ferradura. Do ponto de vista evolutivo, representam uma linhagem antiga, com registros fósseis que remontam ao período Cambriano (cerca de 541 a 485 milhões de anos atrás), evidenciando sua relevância na história da vida animal.
O nome “quelicerados” deriva da presença de quelíceras, estruturas bucais especializadas que substituem as mandíbulas presentes em outros artrópodes, como insetos e crustáceos. Essa característica morfológica define o grupo e tem implicações diretas em sua alimentação e ecologia. Atualmente, os quelicerados são distribuídos principalmente em ambientes terrestres, embora alguns representantes mantenham associação com o meio aquático.
Características físicas:
• Corpo dividido em dois tagmas principais: o corpo dos quelicerados é organizado em duas regiões fundamentais chamadas tagmas. A região anterior é o prossoma (ou cefalotórax), que resulta da fusão da cabeça com o tórax e abriga estruturas sensoriais, boca e apêndices locomotores. A região posterior é o opistossoma (ou abdome), responsável por funções como digestão, respiração e reprodução. Essa divisão contrasta com o padrão de três tagmas observado em insetos.
• Presença de quelíceras: as quelíceras são o primeiro par de apêndices localizados no prossoma. Têm função alimentar, podendo atuar na captura, perfuração ou inoculação de veneno na presa. Em aranhas, as quelíceras estão associadas a glândulas de veneno; em carrapatos, são utilizadas para perfurar a pele do hospedeiro.
• Ausência de antenas: diferentemente de crustáceos e insetos, os quelicerados não possuem antenas. A percepção sensorial ocorre por meio de outros apêndices, como os pedipalpos, e por estruturas sensoriais distribuídas pelo exoesqueleto.
• Pedipalpos desenvolvidos: o segundo par de apêndices, chamado pedipalpos, apresenta funções variadas. Em escorpiões, são transformados em pinças (quelas) utilizadas na captura e defesa. Em aranhas, auxiliam na manipulação da presa e, nos machos, participam da transferência de esperma.
• Quatro pares de patas locomotoras: a maioria dos quelicerados possui quatro pares de pernas, totalizando oito patas, característica marcante dos aracnídeos. Essas patas são articuladas e adaptadas a diferentes modos de vida, como corrida, escavação ou escalada.
• Exoesqueleto quitinoso: o corpo é revestido por um exoesqueleto rígido composto principalmente por quitina e proteínas. Essa estrutura oferece proteção mecânica e reduz a perda de água, sendo fundamental para a conquista do ambiente terrestre. Contudo, limita o crescimento, tornando necessária a realização de mudas (ecdise).
• Sistema respiratório adaptado: a respiração varia conforme o grupo. Aranhas e escorpiões apresentam pulmões foliáceos (pulmões em livro), enquanto alguns ácaros e aranhas menores utilizam traqueias. Nos caranguejos-ferradura, a respiração ocorre por meio de brânquias foliáceas.
Habitat e distribuição geográfica
Os quelicerados apresentam ampla distribuição geográfica, ocorrendo em todos os continentes, exceto na Antártida em termos de populações estabelecidas permanentes. A maioria dos representantes pertence à classe Arachnida, predominantemente terrestre, ocupando ambientes variados como florestas tropicais, desertos, campos, cavernas e áreas urbanas.
Aranhas e escorpiões demonstram elevada capacidade de adaptação ecológica. Algumas espécies de aranhas vivem em ambientes extremamente áridos, enquanto outras habitam regiões úmidas e sombreadas. Escorpiões são particularmente abundantes em regiões de clima quente e seco, como áreas semiáridas.
Ácaros e carrapatos possuem ampla diversidade ecológica, ocorrendo no solo, na vegetação, em água doce e até como parasitas de animais e plantas. Já os caranguejos-ferradura, pertencentes à classe Xiphosura, vivem em ambientes marinhos costeiros, especialmente em águas rasas e fundos arenosos.
Alimentação
A alimentação dos quelicerados é predominantemente carnívora, embora existam exceções. A maioria das aranhas e escorpiões atua como predadora de insetos e outros pequenos invertebrados. Utilizam suas quelíceras para capturar e imobilizar a presa, frequentemente inoculando veneno que paralisa ou liquefaz os tecidos.
Aranhas realizam digestão extracorpórea. Após capturar a presa, liberam enzimas digestivas que liquefazem os tecidos internos, permitindo a sucção do conteúdo nutritivo. Esse tipo de digestão é uma adaptação associada à anatomia de seu aparelho bucal.
Escorpiões utilizam as pinças para segurar a presa e o ferrão, localizado na extremidade do opistossoma, para inocular veneno. O grau de toxicidade varia entre espécies, sendo algumas de importância médica.
Carrapatos e muitos ácaros apresentam hábitos parasitários, alimentando-se de sangue ou de tecidos de seus hospedeiros. Essa forma de alimentação pode ter impacto epidemiológico, pois diversas espécies atuam como vetores de doenças.
Existem ainda ácaros detritívoros e fitófagos, que se alimentam de matéria orgânica em decomposição ou de tecidos vegetais, desempenhando papel relevante na ciclagem de nutrientes.
Reprodução
A reprodução dos quelicerados é, em geral, sexuada e com fecundação interna. O comportamento reprodutivo pode envolver rituais complexos, especialmente entre aranhas e escorpiões.
Em muitas aranhas, o macho realiza uma dança de corte para evitar ser confundido com presa pela fêmea. A transferência de esperma ocorre por meio dos pedipalpos modificados. Após a fecundação, a fêmea deposita os ovos em estruturas chamadas ootecas, frequentemente protegidas por seda.
Escorpiões apresentam fecundação indireta, na qual o macho deposita um espermatóforo no solo e conduz a fêmea até ele. Muitas espécies são vivíparas, dando à luz filhotes já formados, que permanecem sobre o dorso da mãe nos primeiros dias de vida.
Carrapatos e ácaros possuem ciclos de vida com estágios larvais e ninfais, caracterizando desenvolvimento indireto. Nos carrapatos, cada estágio pode exigir uma refeição sanguínea antes da muda para o estágio seguinte.
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| Ácaro-da-sarna: exemplo de espécie de animal quelicerado |
Exemplos de espécies:
1. Latrodectus mactans (viúva-negra): aranha conhecida por seu veneno neurotóxico. Vive em regiões temperadas e tropicais e constrói teias irregulares próximas ao solo.
2. Loxosceles laeta (aranha-marrom): espécie encontrada na América do Sul. Seu veneno possui ação necrosante, podendo causar lesões cutâneas significativas.
3. Phoneutria nigriventer (aranha-armadeira): comum no Brasil, apresenta comportamento agressivo e veneno potente com ação neurotóxica.
4. Tityus serrulatus (escorpião-amarelo): amplamente distribuído no Brasil, destaca-se por sua reprodução partenogenética em algumas populações e por seu veneno de importância médica.
5. Pandinus imperator (escorpião-imperador): espécie africana de grande porte, com veneno pouco tóxico para humanos, frequentemente mantida em terrários.
6. Amblyomma cajennense (carrapato-estrela): parasita de mamíferos, incluindo seres humanos, podendo transmitir agentes patogênicos.
7. Ixodes ricinus (carrapato-da-ovelha): comum na Europa, é vetor de doenças como a doença de Lyme.
8. Dermanyssus gallinae (ácaro-vermelho-das-aves): parasita de aves domésticas, causando prejuízos à avicultura.
9. Limulus polyphemus (caranguejo-ferradura-americano): espécie marinha encontrada na costa leste da América do Norte. Seu sangue possui importância biomédica devido à presença de amebócitos utilizados na detecção de endotoxinas bacterianas.
10. Sarcoptes scabiei (ácaro-da-sarna): parasita que escava túneis na pele de mamíferos, incluindo humanos, causando a doença conhecida como escabiose.
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| Infográfico com resumo das características e exemplos de quelicerados. |
Por Tânia Cabral - Professora de Biologia e Ciências do Ensino Fundamental e Médio - graduada na Unesp, 2001.
Publicado em 13/02/2026
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Bibliografia Indicada
Fonte de referência:
BARNES, R. D. Zoologia Geral. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1988.


